Família, Afeto e Lei: novos moldes de (en)laço.

Conferência apresentada na 2ª Jornada Baiana de Psicologia Jurídica (16/05/2009).

familia pais filhos afetoSempre gosto de começar agradecendo o convite que desde o ano passado já havia sido realizado para que participasse da 1ª jornada de Psicologia Jurídica, porém, em virtude das atribuições cotidianas de trabalho, não pude estar aqui. Este ano, o convite me foi feito com bastante antecedência, não havendo nenhuma possibilidade de ser negado.

Começo com esse agradecimento e acredito ser pertinente assinalar a pergunta inicial que fiz a pessoa que se dirigia a mim para compor essa mesa: Você sabe que sou Psicanalista e falo desse lugar?

Sim, me senti na obrigação de fazer essa pergunta, porque, uma vez falando do lugar da Psicanálise, acredito trazer muito mais dúvidas do que certezas. E para ser sincera, acho que tenho muito mais a aprender com vocês no debate posterior.

Por falar desse lugar, algumas considerações tornam-se pertinentes: a primeira delas, “herdei” um vício fruto das jornadas de Psicanálise: apresento-me fazendo uma leitura de um texto que produzi especialmente para esse encontro, e também por acreditar na possibilidade de ser mais elegante com tempo, sinalizado em 20 minutos.

O segundo ponto a ser esclarecido, é que me permiti inverter os significantes que aparecem na “chamada” da mesa de: Família, Afeto e Lei, para: Afeto, Lei e Família.

Portanto, comecemos com o significante Afeto: a concepção de afeto para a psicanálise é referente ao registro psicológico determinado por Freud (Kaufmann 1996) que, com sua originalidade, desloca a concepção de afeto do registro neurológico para o registro propriamente psicológico, devido aos progressos ocorridos na elaboração do conceito fundamental de pulsão¹ e da noção de “representação pulsional”. Segundo Freud:

(…) ou a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, apud Kaufmann, 1996,P.14)

freud psicanaliseLogo, visto nesta perspectiva, a mim não interessa, neste momento, o sujeito epistêmico de Piaget, o sujeito “normativo” educacional, ou até mesmo o sujeito jurídico. Esse, o jurídico, deixo para as outras palestrantes da mesa que com certeza, falarão dele com maior propriedade. O sujeito, que destino a minha a fala, é o sujeito do desejo. Sujeito das formações dos desejos inconscientes que não podem ser simplesmente costurados e pensados numa ordem cronologicamente correta.

O afeto para a psicanálise é originário na formação do inconsciente sendo este definido como uma invenção e só acontece em ato. Por isso, não há como fazer uma prevenção, uma vez que na própria evitação, está posto o Desejo.

Sendo assim, concordo com Groeninga (2003) quando nos assinala que a questão dos afetos merece atenção especial, pois talvez pele resistência que tenhamos em reconhecer as qualidades agressivas, que todos nós possuímos, tendemos, no senso comum, a equipar o amor ao afeto, muitas vezes idealizando a família como reduto só de amor. Quando na verdade, a função da família, está para além disto.

Os afetos são o equivalente da energia psíquica, dos impulsos que afetam o organismo e se ligam a representações, a pessoas, objetos significativos. Transformam-se em sentimentos e dão um sentido às relações, e ainda influenciam nossa forma de interpretar o mundo.

Assim, a par dos afetos, sabemos que por Freud, esses vão se impondo e sendo vivenciados no decorrer do desenvolvimento do sujeito e é por eles que passamos então a falar o L (maiúsculo) o sentido de Lei e consequentemente a função da paterna.

Guyomard (2007) diferencia o L maiúsculo, do l minúsculo, no sentindo que: as leis (com l minúsculo) são uma maneira mais ou menos imposta de viver juntos. Logo são as leis sociais, morais, culturais ou até mesmo as jurídicas. Enquanto que a Lei (com L maiúsculo) é aquela que se refere a algo que define o humano. E ao apontar para isso, definir o humano, o autor concorda com Freud e posteriormente com Lacan, que para o individuo se tornar sujeito é necessário prioritariamente ter vivenciado e “resolvido” a sua conflitiva edípica, bem como a questão da metáfora paterna.

Para o individuo se constituir como sujeito, ele precisa dar conta da sua travessia do complexo de Édipo e ter estruturado o L maiúsculo em sua realidade psíquica.

É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural por meio dos três modos de negação do Édipo – negação da Castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas: Neurose, perversão e psicose.²

Das três estruturas clínicas, nesse momento, pensaremos naquela que consegue dar conta da saída do Édipo, no caso a Neurose, tendo bem estruturado o L (maiúsculo) em sua dimensão psíquica.

Assim, veremos como acontece inicialmente essa estruturação de uma Lei, em Freud, e posteriormente em Lacan, que ao reler Freud, nos aponta o pai enquanto função, nos afirmando que essa noção de pai em psicanálise não remete exclusivamente à existência de algum pai encarnado. De fato, nada pode garantir antecipadamente que esta encarnação corresponda seguramente à consistência de um pai investido de seu legítimo poder intervenção do ponto de vista do inconsciente. DOR (1991) concordando com Lacan (1957–1959) nos afirma que nesse sentido, “trata-se menos de um ser encarnado do que de uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (DOR, 1991, p.14).

Para podermos entender esse acréscimo que Lacan faz a obra de Freud, comecemos pelo próprio Freud e seu texto A Dissolução do Complexo de Édipo (1925), o autor descreve que naquela época ainda não havia se tornado muito claro o que acarretava a dissolução do complexo. Umas das vertentes teóricas afirmava que a própria condição da falta de realização de determinada paixão, acabava por dissolver o complexo de Édipo. A outra vertente propunha o fato da própria condição filogenética do homem estruturar, via morte biológica, a morte psíquica do complexo de Édipo, ou seja: que tudo na vida chega um dia ao seu fim.

Considerações a parte, o que inevitavelmente ocorre, é que na vida de todo ser humano há uma imposição de limites que são dirigidos tendo, desta forma, este homem que conviver com sua própria condição de ser castrado. Ao afirmar isto, Freud (1925) pontuava: mesmo que um homem deseje todas as mulheres da terra, ao menos uma, talvez a mais desejada, ele não terá: A sua mãe. Para livrar logo desta impossibilidade, normalmente é a própria mãe quem primeiro edita a castração nesse filho, ou seja, o menino, com a descoberta do pênis e o seu profundo interesse pelo mesmo, logo é ameaçado da castração. Imediatamente a mãe lhe impõe uma norma, de que não deve manipulá-lo, caso o faça, será punido.

Há um fato interessante nesta passagem do texto de Freud (1925). O foco da angústia da mãe que castra o filho está na própria manipulação do pênis em si, que para ela também não deixa de ser uma ameaça, afinal de contas é com o mesmo que o incesto pode ser praticado, mas manifestamente ela culpa a mão que manipula o pênis e coloca nela toda a culpa da castração. Freud (1925) ainda chama atenção para o fato das próprias mães saberem da sua condição “inferior feminina”, no século XIX. Afinal, desde de pequenas já fizeram as comparações com seu companheiro do sexo oposto e viram que se saíram “mal”³, assim buscam reforçar a sua autoridade por uma referência ao pai, ou ao médico, posteriormente ao marido, os quais, como dizem, levarão ao cabo a punição.

Freud (1925) acreditava que era essa ameaça de castração que ocasiona a destruição da organização genital fálica da criança. Também acredito nessa possibilidade. Embora para os meninos a ameaça de castração não seja algo que, inicialmente, deem muita importância, eles começam realmente a pensar nesta possibilidade ao fazer comparações com o sexo oposto. Desta forma, questionam como pode a menina, uma criatura tão semelhante a ele, não ter um pênis igual ao seu. É nesse momento que começa e elaboração de que a punição é algo verdadeiro, as meninas por bem já são castradas, fruto de algum erro que cometeram no passado, sendo assim eles começam a pensar nesta possibilidade. “Com isso, a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça da castração ganha efeito adiado”. (Freud, 1925, p. 195)

É, pois, pela ameaça da perda de algo por ele tão amado que a fase fálica dá sua vez ao período de latência. Sabemos que, na fase fálica, a masturbação jamais representa a totalidade da sua vida sexual, porém está na atitude edipiana para com os pais. Sua masturbação constitui apenas uma descarga genital da excitação sexual pertinente ao complexo, e, durante todos os seus anos posteriores, deverá sua importância a esse relacionamento. (Freud, 1925, p. 196)

O interesse narcísico pela parte do seu corpo nada mais é que uma forma de sublimar a intenção da libido objetal. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo alvo ideal (Freud, 1914, p.100). Por ser ideal, contem toda a perfeição de valor. Na verdade, o ser humano não quer perder o que de ideal e perfeição simbólica construiu em sua infância, daí a necessidade de substituir os objetos, já que ele não pode ter a mãe (ou o pai). O indivíduo se vê fadado a gastar toda a sua libido em direção a si próprio como algo compensatório. O ego, desta forma, entra em cena e as catexias abandonadas, sendo substituídas por identificações. O ego, sendo construído neste contexto ideal, está fadado a ser “vigiado” por ele mesmo a todo momento, e este estado de vigilância e censura é uma personificação da consciência por tudo aquilo que a criança vive socialmente, primeiro em sua família pois esta normalmente é símbolo da primeira representação social, segundo pela própria sociedade.

A autoridade do pai é introjetada no ego formando o superego, assumindo assim a severidade do pai, configurando a proibição do incesto. O superego então dita uma Lei e é nessa condição que o sujeito se constitui como o sujeito barrado, ou seja, há nele uma incompletude que lhe é inerente para a sua constituição enquanto sujeito, sendo necessária a presença do Outro.

Quando sinalizo a presença do Outro (escrito com O maiúsculo), este já nos aponta ao Grande Outro que Lacan acrescentou com a sua releitura de Freud e consequentemente com as complementações que este nos traz em sua releitura ao Édipo freudiano.

Lacan psicanaliseEste Outro, nos remete a pensar no Grande Outro Lacaniano, que habita o universo da linguagem onde em alguns momentos, nos depara com o Simbólico, em outros com o Imaginário e em outras vezes com o Real. A estrutura Real – Simbólica – Imaginária (RSI), proposta por Lacan, nos permite afirmar, que a criança, antes de falar, ele já foi falada, uma vez que esta já habitava o desejo dos pais.

Desta forma, todo filho é proveniente de um desejo, a criança já existe, desde o momento em que ela esteja presente no discurso dos pais. Ela é proveniente do desejo de um Outro. É justamente por ser proveniente do desejo de um Outro, que em um certo momento da sua vida, essa criança precisa sair do discurso alienado dos pais, para assim, se constituir como sujeito e dar conta do seu próprio desejo. É por essa explicação, que Guymomard (2007) nos afirma:

o que se chama de lei do pai, na verdade, não é de modo algum a lei do pai, é a lei dos filhos. São os filhos, enquanto filhos, que instauram uma lei. A lei do pai é a lei do gozo, que não tem somente a lei do pai, enquanto exterior aos filhos, mas é a lei que os próprios filhos teriam o desejo de seguir. (GUYMOMARD, 2007, p.8)

Para fundamentar determinada afirmação, Lacan retoma a teoria freudiana dos complexos de castração e de Édipo para articulá-la com a metáfora paterna, conceito que elaborou em seus seminários, com finalidade de estabelecer as funções do pai no processo de simbolização. Para Lacan a interdição do incesto é estrutural e não algo meramente histórico. O autor prefere chamar o complexo de Édipo de Nome – do – Pai, porque isso “não é tão complexo assim”. Sem dúvida, a elaboração do Complexo de Édipo por Freud corresponde precisamente o ponto de partida que Lacan utiliza para a construção da metáfora paterna.

Esse processo de simbolização se realiza em três tempos: frustração, castração e privação. Cada um desses três tempos é marcado pela falta do objeto. Justamente por isso, os três tempos do Complexo de Édipo correspondem também às três modalidades de falta da estrutura.

1° tempo: Frustração – ser ou não ser o falo. Esse tempo remete para as primeiras experiências do recém nascido. Neste ponto, está a originalidade da obra de Lacan, uma vez que para ele o Édipo acontece antes dos 5 anos. Desta forma o autor introduz um terceiro elemento na relação mãe e filho: o falo. É preciso que a criança ocupe o lugar de falo, isto é, o lugar de objeto do desejo da mãe, para ser introduzido no universo simbólico (campo do Outro), da Lei (Nome – do – Pai). Isto é o que Lacan nomeia de processo de humanização do ser falante, que tem como agente a mãe no registro no simbólico (desejo–da–mãe).

Lacan (1956-1967) em seu seminário 4: A relação de objeto, descreve a frustração como sendo momento em que o seio, como objeto de necessidade, se desloca do real para o simbólico, adquirindo dessa forma valor de dom. A partir daí, não só a oferta e a recusa do seio se tornam sinônimos de amor e de desamor, mas também as satisfações da fome implicam a frustração da satisfação da boca.

A primeira experiência de amor, marcada pela fantasia de que se é o falo, estrutura, modela e organiza todos os conflitos a serem vividos nos próximos tempos.

O 2° tempo: Castração – ter ou não ter o falo. Se na frustração o jogo com o falo se passava ao nível simbólico, agora ele se realiza no nível imaginário. A passagem de um tempo para outro é marcada pela introdução de um elemento na tríade da criança, mãe e falo: o pai. O papel a ser exercido por esse pai é interditar a mãe. Essa função de proibição situa o pai no registro do real, o que faz com ele seja apreendido pela criança, ao nível imaginário, como uma figura terrível e tirânica. É nesse sentido que se deve compreender o pai real como agente da castração.

É preciso não esquecer que a paternidade para a psicanálise é uma função simbólica e não real. Nesse sentido, o pai real como agente da castração não tem nenhuma relação com o biológico. O pai real é um operador estrutural como função de colocar em cena o impossível sob forma de proibição. No nível do enunciado, a proibição vela o que está no cerne da enunciação: o real como impossível. Essa função de mascarar o impossível faz com que o pai real seja apreendido, no nível imaginário, como aquele que tem o falo. A onipotência, que a mãe tinha na frustração, se desloca para o pai na castração, fazendo com que ele seja apreendido no nível imaginário como uma figura ameaçadora. A função precisa do pai real como operador estrutural é confirmar, ratificar e reforçar a função simbólica do pai (Nome–do–Pai) inscrita na frustração.

familia afeto leiA função do pai real só se realiza se for mediada pela palavra da mãe. É fundamental que a mãe reconheça que está submetida à Lei do pai. Não é preciso a presença do pai como personagem. Uma mãe viúva ou uma mãe “solteira”, por exemplo, pode perfeitamente exercer a função do pai real. Basta que ela diga e dê provas de que o objeto de seu desejo não é o filho, pois, por detrás dela existe uma mulher que não tem o falo e, justamente por isto, vai buscar em um homem, e não no filho, o que ela não tem.

3° tempo: Privação – ter ou ter o dom. O agente da privação é o pai imaginário: aquele com que lidamos o tempo todo e com quem estabelecemos rivalidade. Trata-se, portanto, do pai idealizado, que tornar-se o para raio dos ciúmes, do amor e do ódio. A falta se inscreve no registro do real porque aponta para o impossível. O objeto se situa no nível simbólico porque a privação se caracteriza pela conversão do falo imaginário em falo simbólico.

Se na castração o pai tinha o falo, trata-se agora do reconhecimento da castração do pai, o que implica a transformação do pai onipotente em pai potente: o pai não tem o falo, mas tem alguma coisa com o valor de dom.

Toda a privação real exige uma simbolização. Na castração, é preciso que a criança aceite a privação materna do falo. Se a mãe não tem o falo, quem tem o falo é o pai. Já na privação, trata-se do reconhecimento da castração do pai. Ou seja: o pai também não tem o falo. É preciso então a simbolização da castração paterna: o pai não tem o falo, mas tem alguma coisa com valor de dom. Lacan (1957 – 1958) no seminário 5: As formações do inconsciente, define essa dádiva paterna como o “título de propriedade virtual” com o qual o menino se identifica.

A privação corresponde ao que Freud denomina de saída ou solução do drama edipiano, momento em que se produz a escolha do sexo pela via de identificação. Nesse momento, retomo ao que apontava, no início dessa palestra: É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural por meio dos três modos de negação do Édipo – negação da Castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas: Neurose, perversão e psicose. E conseguir solucionar o drama edipiano da forma como foi relatada aqui hoje, correspondendo a estruturação neurótica.

É nesse sentido que se deve entender a famosa expressão freudiana de declínio do Édipo: a identificação do filho com o pai. Ou seja, o menino com o direito de ser homem. Quanto à tese freudiana sobre o desenlace do complexo de Édipo na menina, Lacan afirma que as mulheres sabem exatamente onde devem procurar as insígnias que dão direito ao título de virilidade.

Diante do exposto, algo, nos possibilita refletir: é preciso renunciar ao que nunca se foi e ao que nunca se teve, mas que um dia se acreditou ser (frustração) e ter (castração) para que seja possível a simbolização do falo como objeto de dom (privação).

Dessa forma, concordo com Pereira (2003) que nos afirma que a primeira lei é uma lei do Direito de família.

Ainda Pereira (2003) nos acrescenta que A investigação antropológica de Freud, permitiu-o concluir que “o começo da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o Complexo de Édipo”. E o Complexo de Édipo nada mais é que a Lei do – Pai (Lacan), ou seja, a primeira lei do indivíduo e que o estrutura enquanto sujeito, e lhe proporciona o acesso à linguagem. E o possibilita o acesso à cultura.

É então a primeira LEI. É a Lei fundante e estruturante do sujeito, e consequentemente da sociedade e obviamente do ordenamento jurídico. É somente a partir desta primeira lei, quando o indivíduo teve acesso à linguagem, que pôde perceber, com a proibição, que existiam outros totens é que pôde existir a cultura. E talvez a explicação de sua origem seja mesmo a do vinculante inconsciente que se refere Freud.

Assim, podemos dizer, que é exatamente porque o homem é marcado pela ‘Lei – do Pai’ que se torna possível e necessário fazer as leis da sociedade onde ele vive, estabelecendo um ordenamento jurídico.

Apontar para essa questão, é algo polêmico e árduo nos dias atuais, onde nós psicanalistas estamos a todo momento discutindo a questão da falência da função paterna. Forbes (2005) afirma que estamos na era pós edípica. A globalização desloca a verticalidade do pai. Por isso, necessitamos agora de novas representações do mundo. O autor nos acrescenta, a dificuldade de se psicanalisar, hoje em dia, apenas pela chave do Édipo, que se mostra limitada diante novos problemas, sendo preciso ser criado um novo “programa de computador”.

Quando escutava essas afirmações de Forbes (2005), pensava em várias questões que escuto na clínica, nas escolas ou nas universidades nos dias atuais. Para além da vida cotidiana, também vejo e escuto nas novelas (pelo menos as globais) essas novas configurações de famílias e com muitas delas a falência da função.

Escuto professores que trazem em sua queixa, um esgotamento físico muito grande, por não suportarem mais estar naquele lugar, como representante de uma Lei que os adolescentes da atualidade não respeitam mais. Essa professora com mais 20 anos de docência dizia que os jovens de hoje em dia, não são mais os mesmos de 20 anos atrás. Ao passo que escutava isso, à noite quando chego em casa, vejo cenas da novela das 9h na Rede Globo de televisão, onde uma professora do ensino médio de uma escola estava completamente desestruturada em sua função, sem conseguir dar conta do seu exercício do magistério, uma vez que na sua sala, havia um menino chamado Zeca (personagem vivido pelo ator Duda Nagle), líder de um grupo que proporcionava atitudes “vândalas” na escola. zeca duda nagle e antonio caloni caminho das indias globoEm cenas sequentes da novela, nos é apresentado a família do garoto. E então conseguimos entender o porquê daquele sintoma sendo manifesto na escola. Na família daquele menino, tudo se pode, tudo se compra, e a Lei (com L maiúsculo) não existe.

Esse exemplo da novela, torna-se bastante pertinente para ilustrar toda a fala dessa conferência exposta hoje. Observem que na novela, o garoto possui um pai (personagem vivido pelo ator Antônio Caloni) e uma mãe (personagem vivido pela atriz Ana Beatriz Nogueira) real, no sentido de figuras encarnadas, porém o pai enquanto função paterna, em nenhum momento aparece nas cenas.

Dessa forma retomo a pontuação de Lacan, que afirma não ser preciso haver um pai encarnado para que exista a função a paterna. A função paterna deve vir enunciada.

Quando nós psicanalistas falamos que há declínio da função paterna, estamos falando do lugar da função. Essa Lei que deveria ser posta que a com as mudanças da pós modernidade, não está conseguindo ser operacionalizada.

Com a pós-modernidade, Bauman em seus livros já nos clarificou que o tempo é líquido, o amor é líquido, as vidas são desperdiçadas, o sujeito virou coisa e nessa coisa a subjetividade, o sentido e o próprio sujeito foram postos de lado.

Pensar na família pós moderna, nos novos en (laços) sociais, é algo de uma ordem muito complexa. O que poderíamos chamar de novos en (laços) sociais? Novas configurações familiares?

Para que haja uma família, faz necessário primeiro haver o sujeito. O sujeito em questão, por ora exposto, com as suas próprias questões, os seus próprios sintomas e com as suas respectivas faltas.

Para haver desejo, é preciso haver falta. É essa falta, que nos dias atuais as pessoas não conseguem suportar.

Para se constituir uma família, seja lá em que modelo for, é preciso que haja o sujeito do desejo. Um modelo de família perfeito? Não sei se existe.

Apenas concordo com a afirmativa Lacaniana apresentada no seminário 8 “A transferência” (1960-1961): se amar é dar o que não se tem, para quem não é penso que ao escolher um companheiro para assim constituir uma família, antes de mais nada é preciso que cada um conheça bem a si mesmo e se suporte como sujeito.

Por outro lado, observo casamentos que aparentemente dão certo, não são os dos contos de fadas, até porque nos contos de fadas, depois do casamento, normalmente a história acaba com frase do final: “e viveram felizes para sempre” sem nos revelar o que acontece após a cerimônia do casamento.

E o que é viver feliz para sempre? Penso que companheiros dão certos, uma vez que um sabe suportar o sintoma o do outro. O companheiro dito ideal é aquele, que em uma relação é capaz de suportar com paciência e tolerância o sintoma do outro. Coisa nada fácil, para quem não possui as suas questões parcialmente resolvidas.serie globo tudo novo de novo artigo clarissa lago

Por isso que ainda acredito na Psicanálise, e serei Psicanalista até o fim. Na minha profissão o sujeito está em questão. Como Psicanalista escuto e permito que as pessoas se escutem, e ao se escutarem sei que são capazes se re- inventarem a cada dia, descobrindo algo que talvez antes nunca havia pensado, surpreendendo-se. E talvez nessa surpresa, sejam capazes de encontrar o outro amado, assim como nos afirma Nasio (1993) “o outro amado é a imagem que amo de mim mesmo. O outro amado é um corpo que prolonga o meu. O outro amado é um traço repetitivo com o qual me identifico” (Nasio, 1993, p.94).

Portanto, tentando concluir, o que não se conclui, deixo a ressalva: Na nova série de Globo que ontem a noite assistia (a série passa toda sexta depois do Globo repórter) os significantes, título que se apresentam aponta para essa questão: É tudo novo, mas a chamada não para nesses dois significantes e prossegue: DE NOVO! Denunciando a repetição.

Por hoje, paramos aqui.

_____________________________________

¹ A pulsão é radicalmente inconsciente, por definição ela habita no inconsciente freudiano. A pulsão não é nem um instinto, nem uma espécie de apêndice de algum órgão, como se costuma pensar; ela é em si mesma a montagem desses quatros termos. Os quatros termos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e o fim. Ou seja: sua fonte é uma zona erógena; o objeto é totalmente contingente já que, como se diz, “o fim justifica os meios”; o fim (o alvo) é a satisfação entendida como uma diminuição da tensão que disparou. (Lajonquière, 2000, p.159)

² Das três estruturas clínicas, não cabe no momento aqui desvendar, ficando como desejo de escrita para outros trabalhos, mas sabemos que nos referimos a Neurose, Perversão e Psicose. Quinet (2005) nesse mesmo texto que trago como referencia, distingue claramente a Neurose, tendo como forma de negação o recalque, o local de retorno o simbólico e o fenômeno: sintoma; enquanto que na Perversão, a forma de negação apresenta-se como o desmentido, tendo como local de retorno o simbólico, apresentando o fetiche como fenômeno. E por fim, a psicose, onde a foraclusão apresenta-se como forma de negação, tendo como local de retorno o real e a manifestação do fenômeno é alucinação.

³ Em a Dissolução do Complexo de Édipo (1925), Freud expõe algo que faz parte do universo feminino. A anatomia do destino, a distinção morfológica está fadada a encontrar a expressão em diferenças no desenvolvimento psíquico. O clitóris na menina inicialmente se comporta exatamente como um pênis, porém quando ele efetua uma comparação com o menino, percebe que “se saiu mal” e sente isso como uma injustiça feita a ela e como fundamento para a inferioridade. 

Referências:   
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004 
_______________. Vidas Desperdiçadas. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005 
_______________.Vida Líquida. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007 
_______________.Tempos Líquidos. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007 
DOR, Joel. O pai e sua função em Psicanálise. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991. 
FORBES, Jorge. Uma aprendizagem de desaprender – o entusiasmo da invenção. In: MRECH, Leny Magalhães (org). O impacto da Psicanálise na Educação. – São Paulo: Editora Avercamp, 2005. 
FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914). In FREUD Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira.Volume XIV – Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
_______________.A Dissolução do Complexo de Édipo (1925). In FREUD Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira.Volume II – Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
GROENINGA, Giselle Câmara: Família: Um caleidoscópio de relações. In: GROENINGA, Giselle Câmara & PEREIRA, Rodrigo da Cunha (org). Direito de Família e Psicanálise – Rumo a uma nova epistemologia. – Rio de Janeiro: Imago, 2003. 
GUYOMARD, Patrick. A Lei e as leis. In: ALTOÉ, Sônia. A Lei e as leis: Direito e Psicanálise. Rio de Janeiro: Editora Revinter Ltda, 2007. 
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996. 
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: A Relação de objeto (1956-1957). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995. 
_____________. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. 
____________. O Seminário, livro 8: A Transferência (1960-1961). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
___________. O Seminário, livro 17:O avesso da Psicanálise (1969-1970). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: para repensar as aprendizagens. 9ª Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1992. 
NASIO, Juan – David. Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. 
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. A primeira lei é uma lei do Direito de Família: A lei do pai e o fundamento da lei. In: GROENINGA, Giselle Câmara & PEREIRA, Rodrigo da Cunha (org). Direito de Família e Psicanálise – Rumo a uma nova epistemologia. – Rio de Janeiro: Imago, 2003. 
QUINET, Antônio. As 4 + 1 condições da análise. 10 ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2005. 

Written by Clarissa Lago

2 Comments

Maragitado

Brilhante texto! Fico em divida para com o meu amigo Nelson Valente!
Guardei este tesouro, claro, para reler com mais calma!

Nelson Valente

Prezada Clarissa Lago,

li e reli: Família, Afeto e Lei: novos moldes de (en)laço. Recomendo a leitura do livro: A teoria pulsional na clínica de Freud – autor Luiz Hanns – Editora Imago. ” …) ou a pulsão é inteiramente reprimida, de tal modo que dela não se encontre nenhum vestígio; ou se manifesta sob a forma de um afeto dotado de uma coloração qualitativa qualquer; ou, finalmente, é transformada em angústia. Estas duas últimas possibilidades nos induzem a levar em consideração um novo destino pulsional: a transmutação das energias psíquicas das pulsões em afetos, e muito particularmente em angustia. (Freud, apud Kaufmann, 1996,P.14) “. As palavras Reiz ( estímulo ) e Trieb ( pulsão) possuem ambas um sentido de transitividade entre o prazer e o desprazer, evocam a sensação de algo atraente que desperta um apetite e também algo torturante que se impõe. Estas características não estão presente nas palavras “estímulos” e “instinto” em português.
A palavra alemã Trieb era empregada há séculos, na língua corrente, bem como na linguagem comercial, religiosa, científica e filosófica: uma ampla gama de sentidos, os quais, não aparecem em atuais dicionários. Na língua alemã, bem como no texto de Freud, o Trieb pode se manifestar genericamente como uma grande Força que Impele ou Princípio da Natureza ( em Freud, pulsão de vida, de morte, etc.

Prezada Clarissa,
o texto é brilhante. Parabéns !

Nelson Valente
@Escritor4

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