análise 7 conto psicologiaO presente texto é fruto do Grupo de Estudo em Psicologia do Consumidor na Universidade Salvador – UNIFACS, no curso de Psicologia, onde objetiva-se aprofundar os estudos, refletir e problematizar temas e assuntos referentes a Sociedade de Informação, de Consumo e, principalmente, a Sociedade de Espetáculo em que nos encontramos. Sociedade essa que diretamente interfere na produção da subjetividade do sujeito em plena pós-modernidade. Sociedade de Informação, Consumo e Espetáculo se misturam e se complementam a cada dia.

A Sociedade de Informação, exposta por Castells (2006), nos aponta que a revolução tecnológica e digital produzem profundas transformações, gerando novas formas e configurações nas relações sociais. Um exemplo do quanto afirmado é a noção de exclusão. Se esta era antes vista apenas como social, se amplia para uma exclusão digital, que se apresenta, neste modelo social, por meio de um processo de inclusão/exclusão quase automático. A constatação é uma só: na pós-modernidade, século XXI, tudo acontece a passos rápidos e não há muito tempo para grandes problematizações.

Para Castells (2006) na Sociedade de Informação, vivemos entre os “nós”, o que significa afirmar que os fluxos sociais, em uma percepção de rede, não possuem nenhuma distância, gerando assim, como já afirmado, um movimento de exclusão e inclusão em velocidade assombrosa.

Hoje, ou o indivíduo pertence, e é inserido socialmente – em todos os aspectos: social, digital, cultural e intelectual – ou então, consequentemente, estará à margem da sociedade. Afirma Castells (2006): “A inclusão/exclusão em redes e a arquitetura das relações entre redes, possibilitadas por tecnologias da informação que operam à velocidade da luz, configuram os processos e funções predominantes em nossas sociedades”.(Castells, 2006, p.566)

Por sua vez, a Sociedade do Espetáculo descrita por Debord (1991) não vem de forma paralela a essas modificações e sim, como uma complementação à sociedade de informação e de consumo. O modo de produção existente revela-se por uma modelo de excelência, como se vivêssemos em um eterno concurso de beleza em seus diversos aspectos. Não basta apenas o sucesso profissional, é necessário ainda atingi-lo, também em nossa forma estética, na convivência afetiva e social, nas manifestações intelectuais e no lidar com tecnologia digital.

ícaroDevemos ser lindos e belos em tudo. Não há lugar para tentativas frustradas como a de Ìcaro. Deve-se alcançar o sol. É este modelo de sucesso que é vendido como padrão social e, lamentavelmente as pessoas consomem essa “formula”, como se fosse o único caminho para a felicidade. Contudo, nossas imagens se revelam e necessitam ser aceitas nessa sociedade, objetivando ser coerente a tudo isso, mesmo nas incoerências sociais, afetivas e valorativas.

Na sociedade de consumo, a chave da questão revela-se na afirmação de Pichon – Rivère (1998, p.46) “o objeto se transforma no depositário de aspectos nossos, que, por um mecanismo inconsciente, colocamos nele antes de realizar a compra e que só recuperaremos com sua posse”. Afirma ainda, e esta ideia nos é fundamental, “A identificação entre o eu e o que transformo em meu torna-se quase inevitável”. E assim vamos vivendo, sem muitas vezes nos dar conta, que para além das belezas, sejam elas em qualquer um desses sentidos, somos pessoas, seres humanos, sociais, cognitivos e afetivos que precisamos ser respeitados em nossas particularidades e representações – sejam estas sociais ou simbólicas.

Questões como essas perpassam os assuntos da Psicologia do Consumidor, que por muitas vezes, por serem desconhecidas são mal interpretadas. As pessoas possuem uma idéia pré-conceituosa e por vezes mal concebida do que realmente venha a ser os estudos levantados e elaborados nesse campo recém desbravado da Psicologia. Diante da realidade que vivemos nos afirma Mowen (2005): “uma coisa é certa; todos nós somos consumidores”. Isto é inevitável em uma sociedade capitalista. Para Mowen (2005) o consumo significa qualquer relação de troca. A nossa pergunta e postura ética de Psicólogos nos diferencia nessa relação. Como agimos nesse contexto em que o capital impera e nos dita modos de produção e realização de nossas vidas? Não somos da área do marketing, somos Psicólogos. Logo nossa preocupação é com o bem estar, a qualidade de vida, o ajustamento social do individuo, mesmo sendo esse ajustamento incompleto.

Como nos foi afirmado pela Psicanálise a nossa condição é de sermos o sujeito do desejo, logo o ser de falta. Sendo assim nós, Psicólogos, problematizamos, refletimos, conscientizamos sobre as relações de consumo. Os questionamentos e as problematizações em cima do consumo são inevitáveis e mais uma vez nos perguntamos: Será que vamos apenas assistir televisão e falar mal das telenovelas e jornais ou vamos então problematizar com elas?

Uma questão a ser pontuada: Por que será que as “soap opera” globais vendem tanto? Se vendem, é porque há algo de real ali, que em algum momento permite a massa, ao assistir, se identificar. Logo: se vende, é porque há uma relação transferência com a massa. E como e por que essa transferência consegue ser estabelecida? Para além da televisão, a arte, seja esta em qualquer uma da suas manifestações, possui o seu dom. E ao contrário da teledramaturgia, onde muitas vezes assistimos passivamente, a dramaturgia viva do teatro nos permite dar risadas em um sábado à noite, ao passo que observamos nossa própria vida sendo interpretada em cima de um palco e assim refletimos e temos a possibilidade de re-significar nossas vidas.

É justamente esse ponto que constitui o objetivo geral do trabalho em questão: analisar como uma determinada peça de teatro reflete, critica e problematiza a sociedade de consumo. Desta forma, apresentaremos a peça de teatro: “7 conto” realizada com o ator e dramaturgo Luís Miranda, formado em Artes Dramáticas pela Universidade de São Paulo – USP, autor e intérprete do espetáculo teatral, possuindo como objetivos específicos as descrições e análises de seus respectivos personagens, tendo como referencial teórico: a Psicologia do Consumidor, a Psicologia Social, a Sociologia e a Psicanálise.

luismirandaA metodologia realizada consiste em: A pesquisa de campo, que em um primeiro momento se revela, ao passo que fomos ao teatro e assistimos à peça. Após assistirmos o espetáculo teatral, fizemos uma primeira análise baseada revisão de literatura juntamente com a pesquisa documental, visando a estruturação de uma entrevista semi-estruturada com o autor e ator. Voltamos ao trabalho de campo, para a realização da entrevista, com duração de duas horas e trinta minutos. Entrevista esta, gravada e transcrita posteriormente a fim de analisarmos os dados pertinentes para análises e elaboração do artigo científico. Como método de análise da entrevista, recorremos à análise do discurso do autor e ator da peça, nos baseando na linguística de Ferdinand de Saussure (2006) e Jacques Lacan (1998), diferenciando as noções de significante e significado que ambos trazem em suas respectivas teorias.

Assim, em um primeiro momento vamos analisar os quatro personagens de classe baixa, que são: Queixada (o bêbado), Caroline (a chapeuzinho vermelho negra), Dona Edite (a líder comunitária) e vovó Arminda (a velha aposentada), que em seu discurso trazem configurações tanto manifestas quanto latentes. Esses personagens problematizam o paradoxo exclusão-inclusão social e digital, a representação social do negro na mídia, a construção simbólica do desenvolvimento infantil e suas consequências na vida adulta, os estereótipos de beleza que são vendidos e aceitos socialmente, a influência da mídia nas práticas de consumo, o papel feminino moderno e a falta de respeito com os idosos.

O segundo momento consiste na análise dos personagens de classe alta: Detona (o apresentador do jornal Elite), Mc Dollar (o rapper) e Sheila (a socialite fotocopia do modelo europeu). Esses representam o alto padrão da sociedade de consumo, sendo antagônicos ao primeiro grupo. Apresentam-se carregados de críticas em relação à alta sociedade manifestando papéis e discursos que essa classe social representa em sua vida cotidiana. E assim problematizam um discurso elitista, preconceituoso com as classes sociais menos favorecidas e a insistência em copiar modelos europeus como formas de atuação.

Afirma Coelho (2006) que, a sociedade do espetáculo, não significa uma dominação pelos meios de comunicação, particularmente pelos mecanismos de produção de imagens, mas sim, uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens. O espetáculo, não deve ser compreendido apenas como o mundo da visão, o produto de técnicas de difusão massiva de imagens, mas sim, é compreendido em sua totalidade, é ao mesmo tempo resultado e o projeto do modo de produção existente (Debord, 1991).

Significa dizer que é a soma, de uma sociedade capitalista, de informação, de consumo e relações perpassadas pela instabilidade e rapidez em seus processos. Os efeitos da comunicação e sua interação com a cultura, sujeito e a sociedade podem ser objetos de estudo da Psicologia. Mais especificamente para a Psicologia do Consumidor, uma das áreas mais novas e tendenciosas da Psicologia. Uma vez que cabe a Psicologia do Consumidor avaliar o sujeito em sua interação social dentro desta sociedade em sua atualidade. Sociedade esta, de capital, consumo, informação e espetáculo.

Texto dos ANAIS DO XIV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO - RESUMO. ISSN 1981-4321. 
Tema: Sessões Temáticas - Mídia, Comunicação e Linguagem.
Autores: Profª Orientadora: Clarissa Lago e Monaliza Lopes Oliveira, aluna do Curso de Psicologia UNIFACS.
Palavras Chaves: Sociedade de consumo, exclusão - inclusão, subjetividade, psicologia.

Written by Clarissa Lago

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *