babilonia novela globoCom elenco de peso da teledramaturgia brasileira, assinada por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, direção de Denis Carvalho, a nova novela do horário nobre da Rede Globo – Babilônia – chegou provocando tudo e todos, das TFPs Brasileiras aos políticos oportunistas, mais pelo marketing agressivo de seu lançamento do que pelo seu discurso.

Incomodou com o anunciado beijo lésbico de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg e pelo nome bíblico que remete ao apocalipse de perversão e abominação outrora Sodoma e Gomorra. De resto, a morte do pai da mocinha no início da trama e o conhecido universo de traição, inveja, maldade e crueldade entre amigos. Observo também que Adriana Esteves revive Carminha, sua personagem de Avenida Brasil e que Bruno Gagliasso ainda não saiu do psicopata Edu de Dupla Identidade. Isso voltarei a comentar em outros posts.

Já li em alguns outros blogs e colunas que até abaixo assinado para a novela sair do ar está acontecendo e paralelo a isso, o SBT faz chamadas do tipo: “A novela da família”, reprise de Chiquititas, exibida às 20h30; seguida de outra reprise – Carrossel – apresentada no mesmo horário de Babilônia, 21h15.

Se pensarmos criticamente e tivermos uma leitura apurada das novelas, penso que estas, exibem uma vida cotidiana na nossa tela, o telespectador já deveria ter uma leitura apurada e reflexiva ao assistir determinada obra da teledramaturgia.

Brinco sempre quando dou aulas, dizendo: não preciso expor nenhum caso clínico de analisante meu em sala de aula, Salvador/BA é muito pequena, todos se conhecem. Prefiro a riqueza de exemplos das novelas brasileiras que possibilitam interlocuções com a teoria em questão.

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Claro, ao assistirmos uma novela, sabemos quem é o autor. Seguindo esse norte é como ler romances, livros acadêmicos ou psicanalíticos. Ler, determinada obra, torna-se necessário situar autor e tempo em que essa obra é escrita. Não só tempo histórico como também o tempo preciso do autor que escreve naquele determinado momento.

Tomemos como base as leituras dos textos de Freud: O Freud do Pré projeto (1886-1889), jamais será o mesmo do seu último texto Análise Terminável e Interminável (1937). Idem ao ler Lacan.

Em Lacan, ainda temos algo de mais interessante: Lacan deixou por escrito: Os Escritos e Os Outros Escritos – os seminários? Que debruçamos a estudar, ler, reler, decifrar e outras coisas mais – eram seminários que foram transcritos, ficando os direitos autorais para seu genro Jacques Allain Miller. É claro que temos um Lacan no seminário livro 1: Os escritos Técnicos de Freud que jamais será o mesmo dos seus últimos seminários tais como: O Seminário do livro 22: R. S. I ou o Seminário 24 L’insu que sait de l`une-bévue s´aile à mourre , sendo estes últimos ainda inéditos no Brasil.

Se sabemos que isso existe na psicanálise, na teledramaturgia, penso ser assim. Novela escrita por Gilberto tem suas marcas e seu estilo próprio. Saímos de um autor como Aguinaldo Silva (novela Império antecessora de Babilônia), com todas as suas características bem fortes e estamos agora com Gilberto Braga que também com características fortes já possui a sua marca na Rede Globo. Assinou novelas que o revelou como Dancin’ Days (1978-1979), bem como outras que o solidificou como Vale Tudo (1988 – 1989), novela esta que por sinal tinha ao seu lado parceiros titulares o próprio Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.

val perre babiloniaVale Tudo viria a ser revelada como uma novela a “cara do Brasil” na década de oitenta. Mas, Babilônia? O que esperarmos? Não vou me ater às questões religiosas, até porque no lugar de psicanalista, não tenho religião. E diante de tantas questões que a nova novela traz, farei apenas um recorte das cenas do primeiro capítulo dentre tantas outras que de “cara” os autores escancaram, como por exemplo: o assassinato do motorista (Val Perré) não passa batido pois sustenta a trama com um vídeo de chantagem de Inês (Adriana Esteves) para Beatriz (Glória Pires) além de o morto ser o pai da terceira mulher da história – a batalhadora Regina (Camilla Pitanga).

Vamos ao recorte; O tão mencionado beijo “gay” que apareceu em minha timeline do facebook ao longo de toda semana? Não vi nada demais. Ok, linda a cena, duas grandes atrizes se beijando, mas….???…..O que teve a mais naquela cena? Qual era a grande questão? Era por ser um beijo entre duas mulheres da terceira idade? Ou por que eram duas atrizes consagradas como Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro?

Bem, só gostaria de esclarecer uma coisa: Achei a cena linda, mas não vi nada demais. E quanto a ser “gay” só alerto aos desavisados – façam uma boa leitura psicanalítica. Qualquer relação que seja; para a psicanálise tende a ser uma relação heterossexual. Pouco importa, aliás, NÃO IMPORTA: se são dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher – na dinâmica do sexo – escrevo psicanaliticamente – vale sim, a posição que cada sujeito ocupa na dinâmica do sexo – logo: um está no lugar do sujeito do desejo, o outro no lugar de objeto a¹. Um ocupa o lugar de amado, o outro de amante. E nesse ciclo desejo – desejante; amado – amante; nessa díade, nesse entrelaçamento para uma relação se sustentar os lugares e posições entre ambos sempre se alternam até para que uma relação possa ser estabelecida.

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Gay, homossexual, “rótulos” ou “termos” desse tipo, são criados, “inventados” para cumprir o que talvez possamos chamar de uma “Moral Sexual Civilizada”.

Se me perguntarem: A psicanálise ainda é uma prática subversiva? Sim, Sim, Sim, ainda é uma prática subversiva, embora exista todo um rigor ético e técnico em um ato analítico.

Espero continuar assistindo novelas com beijos seja lá quem estiver se beijando, bem como apostar que numa festa vale dançar homem com homem e mulher com mulher!!! Então desta forma sim, está valendo tudo no que tange a dinâmica dos sexos e de forma conseqüente o amor. Acredito nos versos da canção: “Qualquer maneira de amor vale a pena, Qualquer maneira de amor vale amar”.

O importante é ter um convívio feliz consigo mesmo! Isso vale buscar, apostar! Dizem que ao fim de uma análise, o máximo que podemos ter é um inconsciente advertido e alegre.

A psicanálise ao contrário de outras abordagens, não promete cura, ao fim de uma análise o máximo que se pode assegurar é que o sujeito possa viver de forma bem mais leve!

Ah, isso sempre apostei e continuo apostando, e operar na função analista – ainda que seja um lugar do impossível – ocupando o lugar de dejeto, do lixo, e tantas outras coisas como nos já afirmou Lacan ao longo dos seus seminários – espero que ao fim de uma análise, os analisantes que em meu consultório habitam – ainda que sofram – pois não é nada fácil submeter-se a um processo psicanalítico, sendo a psicanálise em si uma prática cruel.

O sujeito a todo o momento é levado ao questionamento, ao encontro com o pior que existe em si e se perguntando o que ele esta fazendo da vida dele. Não existe essa coisa de “deixa a vida me levar”, a psicanálise é uma prática que convoca a todo o momento o sujeito pegar a sua própria vida e estando advertido – saber o que fazer com ela. Ao final de uma análise… Ser feliz com seu inconsciente e crer: “Qualquer maneira de amor vale aquela, Qualquer maneira de amor valerá”.

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¹ Lacan considera ter construído e inventado o objeto a. Ele é um objeto que se reveste da característica de ser escrito com um símbolo, a letra “a”. Esse símbolo “a” não representa a primeira letra do alfabeto, mas a primeira letra da palavra “outro” [autre]. Na teoria lacaniana, existe o outro com “a” minúsculo e o Outro com “A” maiúsculo. Este, o Outro com maiúscula, é uma das imagens antropomórficas do poder de sobredeterminação da cadeia significante. Já o outro minúsculo, com que a letra a qualifica nosso objeto, designa nosso semelhante, o alter ego. (NASIO, 1999, p.92)
Se formos a Kaufamann (1996) percebemos que o conceito do objeto a já estava presente desde a obra freudiana. Freud conduziu a questão do objeto na psicanálise à de um objeto perdido em jogo na repetição, e Lacan acrescentou a isso a questão do traço que inscreve a repetição.

Referências:

FREUD, Sigmund. Obras completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. - Rio de Janeiro: Imago, 1996. 
GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
NASCIMENTO, Milton. Paula e Bebeto. In: http://letras.mus.br/milton-nascimento/1160851/ acesso em 20 de março de 2015. 
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1. Os escritos técnicos de Freud. (1953-1954).  – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1986.
______________ O Seminário, livro 8. A Transferência. (1960-1961). - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 
_______________ Seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed, 2009.
________________. Seminário livro 19: ...ou pior.(1971-1972). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.
_______________. Seminário livro 20: mais, ainda. (1972 – 1973) 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
______________.O Seminário, livro 21: R.S.I.. (1974-1975). Inédito.
_____________. O Seminário, livro 23: o sinthoma, (1975 – 1976). – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.
______________. O Seminário, livro 24: L'insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre. (1976 – 1977) Inédito 
______________. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
______________ - Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor., 2003.
MAIA, Tim. Vale tudo. In: http://letras.mus.br/tim-maia/48940/ acesso em 20 de março de 2015.
NASIO, J.D. O conceito de objeto a. In: NASIO, J- D. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, p.87-117.
OBJETO. In: KAUFMANN,P., Dicionário Enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.377-380.
PLATÃO. O Banquete. 2ª edição – Bauru, SP: EDIPIRO, 2007.
Roudinesco, Elisabeth – Jacques Lacan – Esboço de uma vida, historia de um sistema de pensamento. Companhia das Letras, São Paulo, 1994.

Written by Clarissa Lago

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