Foto: Alba Vasconcelos

Foto: Alba Vasconcelos

Uma análise do espetáculo teatral “7 Conto”.

A globalização é marcada por mudanças significativas da sociedade, através das revoluções tecnológicas, informacionais, sociais, econômicas entre muitas outras transformações. Com isso o cenário mundial, apresenta-se como um universo múltiplo e complexo, caracterizado por uma crescente internacionalização da produção, do mercado e da cultura, além de profundas inovações científicas e tecnológicas na área da comunicação. Com essa modernização e evolução, os serviços e os meios de comunicação tornaram-se mais eficientes e dinâmicos.

Para Gomes (2001) o capitalismo apresenta uma expansão contínua das forças produtivas, fortalecendo sua posição de poder e riqueza no mundo real. No entanto, esse mesmo sistema cria crises expressivas, entre elas a social, econômica e política, que ocorre em implicações mundiais.

Uma dessas crises merece especial atenção devido ao impacto das mudanças que a globalização está provocando na estrutura interna das sociedades e nas suas relações interpessoais. Nesse sentido, Marcondes (1988) afirma que, há uma transposição do modo de produção capitalista para o plano das ideias, adentrando todos os contextos da sociedade e tornando-se um sistema organizado em ideias que regem a educação, cultura, lazer e que influencia a ação dos indivíduos em sociedade.

É desta forma que Guattari (1986 apud CZERMAK, 2004) refere-se ao modo de produção “capitalístico”, e usa o sufixo “ístico” no sentido de criar uma expressão que traduza um caráter mais abrangente do termo, englobando não só o capitalismo dos países desenvolvidos e o capitalismo periférico dos países do Terceiro Mundo, mas também, as economias ditas socialistas que vivem uma espécie de dependência e contra dependência do capitalismo (socialismo burocrático).

A questão proposta é de que não existe uma diferença fundamental em qualquer uma destas sociedades sob o ponto de vista de uma produção de subjetividade. Em todas elas, o capitalismo moderno está presente produzindo um “jeito de ser”.

O capitalismo nesse sentido ultrapassa os níveis da produção e do consumo e atinge o próprio inconsciente dos indivíduos. Esta concepção de subjetividade difere então de uma noção de subjetividade interiorizada e individualizada e a externaliza como algo construído em sociedade, no plano material (por vezes de forma conotativa) (CZERMAK, 2004).

Na sociedade global, dominada pelo capitalismo, reproduzem-se às contradições de classe, de antagonismo, as hierarquias e as diversidades sociais. Essas contradições são representadas pelos mais variados campos da cultura, dentre esses lugares que são propagados a influencia capitalista, destaca-se a mídia. Por mídia, Gomes (2001) caracteriza como todos os veículos e produtos que servem como meio de propagação do imaginário e dos discursos da cultura. A cultura tendo como definição a delimitação de meios simbólicos que organizam as experiências humanas, constituindo-se como marco diferenciador entre homens e animais (DAMATTA, 1999) inclui em seu escopo a discussão do autor contemporâneo sobre a dualidade desse conceito posto que, em uma abordagem considera-se o universalismo e evolução da sociedade e em outra, o particularismo e as nuances que distinguem as pessoas e assim as sociedades. Dessa forma, Damatta (1999) afirma que há a idéia de ‘Cultura’ (com ‘c’ maiúsculo), a qual é fechada para manifestações singulares e confunde-se com progresso e civilidade. A cultura (com ‘c’ maiúsculo) aborda a perspectiva a qual afirma que há um padrão ideal de manifestação cultural a ser seguida.

A mídia funciona então como o meio de propagação dessa ‘Cultura’ organizada de acordo com o modo de vida capitalista da sociedade atual. É designada como meio de comunicação em massa, meio de comunicação social, meios eletrônicos de comunicação, indústria cultural. A mídia é um instrumento da realidade que está diretamente relacionado com a produção de sujeitos sociais, incentivando a construção de significados e a formação de subjetividade.

Segundo Gomes (2001), os documentos extraídos da mídia manifesta construções subjetivas de discursos e comportamentos. Com isso, as imagens estereotipadas e reforçadas pela mídia, como nas figuras produzidas pela Disney, a Warner e a Mattel, não diz respeito apenas uma imagem divertida, colorida e atraente, mas remete também a posições e lugares sociais almejados pelo telespectador (GOMES, 2001).

A vida representada por personagens da mídia, passa a fazer parte da vida social dos sujeitos que transferem através dessas figuras televisivas, desejos e anseios subjetivos. A partir disso, a sociedade passa a consumir essas imagens como referenciais idealizados de vida e comportamento, o que só é possível pelo seu processo de subjetivação atrelado ao sistema capital e de consumo.

A presença da mídia na sociedade capitalista, marca a onipresença desse modo de vida pela abrangência da mesma nos meios de comunicação de massa cotidianamente. A presença, no entanto, de meios de comunicação livres e autônomos como o teatro que obedece ao roteiro de seu idealizador a despeito da crítica e do público pode permitir a releitura de contextos e modos de relação em sociedade de forma simples e através do riso, não sendo menos ferrenhas em suas análises político-sociais, mas apenas transformando o discurso direto politizante em uma “transformação pelo riso”.

Luis Miranda por Marcelo Gandra/Agecom

Foto: Marcelo Gandra – Agecom

Utilizando-se de uma entrevista realizada com o ator e dramaturgo Luís Miranda, formado em Artes Dramáticas pela Universidade de São Paulo – USP, autor e intérprete do espetáculo teatral “7 conto”, este artigo teve por objetivo analisar o papel da mídia na sociedade globalizada como meio de disseminação do comportamento de consumo e avaliar o papel do teatro enquanto mídia, exercendo a crítica da realidade.

Este objetivo foi possível a partir da análise do discurso do referido com o intuito de captar na fala do ator conteúdos que representem o mundo da mídia e da comunicação em interconexão com o roteiro do espetáculo em questão.

No espetáculo teatral “7 conto” o ator Luís Miranda interpreta sete personagens compondo um “espetáculo de humor, que de maneira crítica e bem humorada, aponta sem julgamento as diferenças gritantes do nosso país” (segundo Fred Soares Produções).

7 conto luis miranda peça teatral personagens

São personagens parte deste espetáculo (em ordem de aparição): o bêbado Queixada, guardador de carros que gosta de filosofar profundamente; Caroline, garota negra que quer ser atriz mas não se identifica com as personagens encontrando como saída, pedir a Walt Disney que dedique um papel a ela; Dona Edite, líder comunitária que fala sobre economia, política e culinária em seu livro “Como Criar seu Filho na Favela”; Detona, apresentador de programa que defende os interesses da classe dominante achando ainda, que a mesma sofre injustiças; o rapper McDollar que somente veste griffe e fala do preconceito sofrido pela elite por parte dos desfavorecidos defendendo a “quebra do Rollex do preconceito”; Sheila que representa a decadência dos conceitos burgueses e não se importa com o quanto paga para conseguir o que deseja; por fim, a vovó Erminda que representa a exclusão digital ao demonstrar a dificuldade dos idosos ao lidar com novas tecnologias incorporadas ao cotidiano como o caixa eletrônico.

Os dados coletados na entrevista com o ator, no espetáculo e em materiais bibliográficos foram analisados de acordo com a análise de conteúdo. A partir disto foi possível basear seu discurso e analisar o papel do teatro como mídia crítica dessa sociedade atual com base teórica da psicologia do consumidor, psicologia social, psicanálise e sociologia.

Foi possível perceber como através da veiculação de imagens, a mídia exerce sua manipulação através de um “tecnopoder”, como aponta Steinberg (apud Gomes, 2001), que cria e veicula “verdades” inquestionáveis sobre valor, crenças e comportamentos, influenciando de forma maciça os consumidores em potencial. Acompanhando a lógica capitalista, os indivíduos em sociedade parecem acompanhar as mudanças socioeconômicas em seus estilos de vida como pode ser observado nas personagens interpretadas pelo ator. Essas mudanças levam a um esvaziamento do simbólico e a ausência de significado na formação da subjetivação do consumidor levando ao consumo acrítico dos produtos idealizados da mídia. Em sua fala, o ator corrobora com esta afirmação de Willins (1997), ao afirmar que com a abertura do mercado e com o início da globalização, a sociedade se vê invadida de forma absurda pela tecnologia, mirando-se inclusive em um desenvolvimento que desconhece. A sociedade atual vive em um ideal imaginário e por vezes, impossível de ser atingido. Com isso, avalia-se como relevante a inserção da psicologia nos contextos midiáticos, pois também nesse contexto emerge o sujeito da clínica, da organização, da escola e tantos outros em que a psicologia atua.ANAIS DO XIV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO

Assim, a psicologia do consumidor contribui em seus estudos para uma análise crítica do sujeito na sociedade de consumo alertando para as influências dos meios de comunicação para a formação da subjetividade e mudanças por parte dos indivíduos na sociedade capitalista.

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Texto dos ANAIS DO XIV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO - RESUMO. ISSN 1981-4321.
Tema: Sessões Temáticas - Mídia, Comunicação e Linguagem.
Autores: Clarissa Lago, profª orientadora e Mariana Sousa Lima, Rebeca Ricarte de Freitas, Monaliza Lopes de Oliveira, Daniela Lemos e Tayala Reis Santana, alunas do Curso de Psicologia UNIFACS.
Palavras Chaves: Sociedade de consumo, exclusão - inclusão, subjetividade, psicologia.

Written by Clarissa Lago

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