Como psicanalista, faço minhas as palavras de Lacan em um dos seus seminários, abrimos mão do nosso ser, para poder ocupar essa função analista. Função do “lixo”, dejeto, depositário do horror de um Outro.

Ser praticante da psicanálise, é meu ofício. Chego ao ponto de meus analisantes brincarem comigo dizendo: “a melhor coisa que você fez, foi fazer um consultório de psicanálise em seu próprio apartamento, uma vez que você praticamente morava no consultório”.

amores livresMeus analisantes que comigo convivem diariamente, sabem que não sou psicanalista ortodoxa, tenho minhas críticas inclusive à própria psicanálise em alguns aspectos, critico também algumas relações de analista com seus respectivos analisantes e essa psicanálise clássica, onde o analista nem sequer responde ao chamado de um analisante via WhatsApp porque “infringe” a regra psicanalítica? Bem, essa psicanalista? Não sou!

Pontuo sempre, cabe ao psicanalista o momento de espera, bem como perceber como a relação de transferência, singular para cada analisante se instaura. Salvador – Bahia é uma cidade muito pequena no que tange as fragmentações das classes sociais, é muito comum analistas e analisantes se encontrarem não só pela rua bem como nos “guetos” da psicanálise. A mim? Como analista? Para cada analisante, uma analista, fico à espera de como cada um se comporta na esfera pública.

Alguns analisantes me encontram nas ruas, falam comigo, me apresentam mãe, pai, as vezes filhos. Outros vão às minhas palestras para me escutarem e ao final me cumprimentam, como também tem uns que declaram “se algum dia te encontrar na rua? Eu troco de calçada! Não quero jamais me bater com o meu pior de frente!” Ok, transferência é terra que ninguém passeia.

joão jardimMas toda essa volta foi para tentar esboçar, sobre a nova série documental “Amores Livres” dirigida por João Jardim (foto) que estreou na quarta-feira, 5 de agosto, no canal fechado GNT.

As chamadas da série chamava atenção, de repente questionava: Epa? Meus casos clínicos viraram documentário? Como é que isso vai ser exibido, elaborado, como algo da esfera privada irá para uma esfera pública?

Sim, no privado, tudo aquilo que a série documentário mostrou, ao menos no primeiro episódio, de uns tempos para cá escuto no meu consultório cotidianamente. Mas…com uma grande diferença!

Escuto o que a televisão não mostra e nem pode mostrar, escuto os embaraços, as atuações histéricas e que não há como o sujeito escapar dessas paixões do ser; que são as três paixões fundamentais em relação com os três registros, real, simbólico e imaginário.

No seminário, livro 1 “Os escritos técnicos de Freud” Lacan situa as três paixões fundamentais e as situará enquanto verdadeiras interseções parciais do sujeito: o amor: se situa na junção do simbólico e do imaginário; o ódio, na junção do imaginário e do real; e a ignorância, na junção do real e do simbólico.

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A primeira pergunta que ao ver aquele documentário fiz foi no que tange ao título desta escrita: “Amores Livres” ou “Paixões do ser”? (Para assistir ao trailer da Série documental dirigida por João Jardim, que estreou em agosto no GNT, clique na imagem abaixo).

amores livres serie gntComo psicanalista, escuto de tudo, na função analista, me cabe pontuar quais as implicações que afeta a vida do sujeito que fala dessas relações abertas. E, ainda que o objeto pequeno “a” seja perdido, algo sempre a ser buscado, o sujeito é sempre faltante, há sempre o desejo, mas foi o próprio Lacan que nos disse: Não devemos ceder ao desejo. Há desejos irrealizáveis pois tudo na vida se paga um preço, às vezes, quando não sempre o preço que se paga é muito alto. Ainda que se divida em suaves prestações, há sempre os juros e a correção monetária!

Faço todo essa análise, do ponto de vista psicanalítico da questão. De forma alguma sou moralista, careta, ou qualquer coisa do tipo; inclusive muitos analisantes me procuram e trazem em seus significantes coisas do tipo: “Te escolhi como psicanalista porque já escutei que você é descolada! É uma psicanalista Up!” Entretanto cabe refletir de forma cuidadosa, as palavras de Marco Antonio Coutinho Jorge, um psicanalista que de forma declarada já disse a ele: Tenho por você uma transferência de trabalho desde a minha época de estudante de psicologia. Amo, quando temos nossos encontros na cidade maravilhosa, mais ainda quando vou a sua bela casa em Santa Thereza, bairro da minha infância “carioca” e para além disso quando logo na primeira sala me identifico quando vejo o piano de cauda.

Marco, no seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan (Volume I) na página 149, diz:

A paixão amorosa, por sua vez exacerba esse sentimento inerente ao amor, de que se trata de uma complementaridade entre dois sujeitos. Por isso, a paixão não correspondida tem muitas vezes, no seu horizonte, o crime passional – o assassinato – que, para Lacan, é a única maneira de atingir, ilusoriamente, a relação sexual, com a eliminação radical da diferença do desejo do Outro, o qual sempre introduz, naturalmente, em toda relação, alguma forma de castração. Desse modo, o polo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

Por isso que na sexta-feira, ao ler a crônica de Xico Sá no El País, tomei um susto. Uma porque Xico é meu objeto pequeno “a” (risos), acho que meu e de todas as mulheres, curto a escrita dele, muitas vezes bato um papo com ele pelo messenger do Facebook. Claro, li sua crônica, admiro a forma chistosa com que ele escreve. Como Jornalista, não cabe a ele tecer elaborações do conceito de pulsão. Mas, na hora que li? Escrevi para ele de imediato – e olhe que ele sempre responde minhas mensagens, mas…essa ainda não respondeu.

Todo o texto de Xico Sá que está na crônica do El País, quando ele escreve instinto, para a psicanálise, é pulsão. Estamos falando dos “amores livres”….logo, para não me chamarem de piegas ou de qualquer coisa do tipo, recorri ao seminário de Livro 11 de Lacan “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”; e de fato, não estava enganada. Lacan no capítulo XV Do Amor à Libido pontua:

(…)Freud, de um lado põe as pulsões parciais, e do outro, o amor. Ele diz – não é a mesma coisa.

As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é o rom- rom. (…) a pulsão sexual genital, se ela existe, não é de modo algum articulada como outras pulsões. E isto, malgrado a ambivalência amor – ódio. Em suas premissas, e em seu próprio texto, Freud se contradiz propriamente quando ele nos diz que a ambivalência pode passar por uma das características de reversão da Verkehrung da pulsão. Mas quando ele a examina, ele nos diz mesmo que NÃO são de modo algum a mesma coisa, a ambivalência e a reversão. (Lacan, 1964, p.179).

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Então no parágrafo seguinte, descrito dessa aula, tem uma passagem que me faz admirar cada vez mais Lacan, vibrar com ele, escutá-lo e sentir uma dor “retada” porque não consegui assistir nenhum de seus seminários! Ora…no ano que Lacan morria? Eu estava nascendo….Mas, algum de meus leitores já tiveram a curiosidade de assistir um dos seminário dele pelo YouTube? Gente!!! O cara além de muito gato, tinha um jeito histérico de proferir seus seminários….que não era do nada que seus seminários viviam lotados e em sua platéia nada mais, nada menos havia Foucault, dentre tantos outros que fizeram história no século XX.

Pois então, voltemos ao seminário livro 11 de Lacan, na aula supracitada. Assim, vou tentando terminar esse texto, para não receber “bronca” do meu editor (risos) que a todo momento me pontua: “texto de blog é curto Clarissa!”, e respondo: “mas não sou blogueira”….sou uma psicanalista, se duvidar aprendiz de feiticeira!

Mas, vejam essa passagem de Lacan, quando ele diz: “Se então a pulsão genital não existe, ele só pode se f… feiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão,” (Lacan, 1964, p.179)

E vocês mataram a charada do que é esse f… (com reticências) que aparece no seminário? Não?!? …é o se fuder!!!!

É isso mesmo, afinal….lembram o que escrevi em parágrafos anteriores? As paixões do ser são: amor, ódio e ignorância. – Disso, o sujeito não escapa, e assim, só lamento informar….com a ignorância, não se sabe aonde essas relações irão parar….e então a pergunta que não quer calar é? Você está a fim de bancar isso? Porque tudo pode acontecer….nesses “Amores livres”

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Referencias:

Jorge, Marco Antonio Coutinho. O Objeto perdido do Desejo. In. Jorge, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan v.1: as bases conceituais – 4ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005; p.139 – 158.

LACAN, Jacques. A verdade surge da equivocação. In: LACAN, Jacques. Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1943). O Seminário Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981, p.297 – 310.

_____________. Do Amor à Libido. In LACAN, Jacques. Seminário Livro 11: Os quatro conceitos cruciais da psicanálise (1964).- 2ªed – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.177 – 189.

Written by Clarissa Lago

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